segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mário Quintana - Esperança



Esperança
Mário Quintana
(Mario de Miranda Quintana, was a Brazilian writer and translator. He became known as the poet of "simple things", and his style is marked by irony, profundity and technical perfection)

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Texto extraído do livro "
Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118)

Liza Minnelli em "Some People", "I Gotcha" e "Mein Herr"

 A brilhante Liza Minnelli





domingo, 30 de dezembro de 2012

Mayra Andrade - Tchápu na bandera - Live à Bruxelles

Mayra Andrade from Capo Verde at Botanique in Bruxelles Belgium on 2nd december 2010 (as part of the festival EUROPAVOX):


Benoit Medrykowski - guitar & cavaquinho; Luiz Augusto Cavani - drums; Nenad Gajin - guitar; Adriano Tenório DD - percussions; Stef Castry - bass

Simone Guimarães em "Passas por mim"

"Passas por Mim" : Um choro-canção de Simone Guimarães em homenagem a Guilherme de Almeida. Música inédita. Voz, violão e teclados: Simone Guimarães.
 
 
 
 
 

Mário Quintana - "Quem Sabe um Dia''


[Quem Sabe um Dia]

(...)
Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

Mário Quintana

sábado, 29 de dezembro de 2012

Soneto (di)versos retratos


Manhãzinha...

Esperando a lanchonete abrir para comprar um Cartão Zona Azul, sentava-me na calçada da Rua Leandro Dupret desfazendo qualquer ocorrência de pensamento mais imagens até chegar ao não pensar. De hábito, isto é muito rápido de se conseguir, mas nem preciso, pois me basta ficar sob atenta desatenção aguardando um incidente qualquer acontecer e... pronto! lá vem um haicai, um conto, e assim por diante, mas se estou com a máquina fotográfica digital, retomo o exercício de parar a mente para me encontrar com o que escapa aos olhos.

Ao ligar a máquina seu visor mostrou a imagem que vem logo abaixo deste preâmbulo. Daí pra frente era só seguir adiante ao meu objeto de aplicação. Ah, na fotografagem, ainda comprei o tal cartão na banca de jornal, e brinquei com jornaleiro no acerto do troco. Tomei um café na padaria de esquina com a Rua Borges Lagoa e voltei ao ponto de partida para colocar o cartão no carro. Tudo estava dentro do processo iniciado. Tudo muito agradável, dentro do objetivo e que se finalizaria ao me encontrar com a Regina na R. Pedro de Toledo. Intensidade de sentidos... descobertas a cada momento, indo se encaixando por um caminho novo, em integração.

Incidente 1.
 
2. Levantei o visor na máquina e... (clic)
 
3. Alguns passos à caminho da banca de jornal, afinal, lá o cartão da zona azul é cinquenta centavos mais barato:
 
Certamente haviam razões para um nó cego contra o céu azul.
 
4. 
Razões em tudo,
 
5.
tudo,
 
6.
e até onde parecia não haver razão alguma.
 
7.
Voltando da banca de jornal para o carro.
 
8. 
Oh, a manhã se lavando:
 
9. 
Novamente subindo a R. Leandro:
 
10. Ao atravessar a Rua Borges Lagoa para alcançar a R. Pedro de Toledo, achei de contornar o quarteirão pela R. Dr. Barcelar. Quem sabe um novo encontro a retratar?
 
Uma folha seca junto a uma desgastada faixa de trânsito.
Coincidência? 
 
11. 
O ventou levou a folhinha a um "x" de razões:
No asfalto estava escrito TAXI.
 
12. Por fim, contornei o quarteirão e cheguei ao local aonde a Regina estava, mas antes de entrar, achei de dar alguns passos adiante. Mais razões?
 
Senti elegância nesta  matinho junto ao muro de uma comprida e bem formada floreira.

Eu iniciara a sessão fotográfica sentado sobre uma floreira.
13. Por fim, encontro-me com a Regina. Sentando-me ao seu lado lhe mostrei a foto acima para lhe perguntar se aquela vegetação era do fitoterápico extrato para o chá de quebra-pedra. Ela respondeu-me que a do chá espalha-se de modo rasteiro. Mas ao clicar o botão da máquina que passava do modo de apresentação para o enquadramento fotográfico, apresentou-se a imagem abaixo. A aventura fotográfica terminaria com esta foto, pensei eu. Ela sorriu ao ver a tomada da foto, e passou a balançar o outro pé. Oh, baby baby.
 

14. O pé esquerdo descança no ar,
o direito passava em balança:

 
Vendo agora que foram quatorze fotos, descobri o título desta postagem.

Jairo Ramos Toffanetto

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

... Foi assim que conheci o Pequeno Príncipe (de Saint-Exupéry), ouvindo a história.



Texto de "Antoine de Saint-Exupéry,
em "O Pequeno Príncipe":

"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

Gosto de Saint-Exupéry a começar pelo seu primeiro nome, pois sua pronuncia é Antoâne. Se a letra "a" de Antoine abre o alfebeto, Exupéry tem duas letras do ponto extremo do alfabeto o "x" e o "y" e, ainda, o "x" com som de "z".

Foi uma professora que morava num sobradinho na frente de casa que me ensinou estas sutilezas de uma língua estranha para mim. Desde que ela me convidou para tomar chá com bolo em sua casa, fiquei completamente cativado com as histórias que ela me contava. Foi assim que conheci "O Pequeno Príncipe", ouvindo a história. 

Dona Mariot me contava partes do livro assim como Antoine contava das estrelas. Mostrava o quanto podemos ser especiais e a partir da própria existência, cativando. Do outro lado da mesa eu me sentia voar num mundo admirável. Pedi o livro para minha mãe, e ganhei uma notável coleção de contos brasileiros, de fadas, e tudo mais em doze volumes. Junto veio o romance "O Pequeno Lorde, de Francis Burnett".

“Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativas (Exupéry)”:

Antes de sair da casa da Dna. Mariot, pedia-lhe para que tocasse piano. Um dia ela, por motivos de doença em família, teve que se mudar às pressas para a cidade de Santos. Disse-me que não poderia levar o piano no caminhão de mudanças e que se eu o quisesse e cuidasse bem dele, ela o deixaria para mim. Um ano depois ele voltou. Ao saber que eu fazia aulas de piano, ela foi embora sem o piano. Meu pai quis comprá-lo, em vão. Ela só levou o piano seis anos depois. 

Embora meu pai fosse um bom contador de histórias, e a quem devo a pureza do universo da imaginação, foi com Dna. Mariot, e através de Antoine, que eu mergulhei num mundo de verdades da criança e não da verdade de adultos (dito escritores) para crianças. Coisa que desde cedo aprendi reconhecer e separar das minhas escolhas.   

Antoine de Saint-Exupéry

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry filho do conde e condessa de Foscolombe (29 de junho de 1900, Lyon - 31 de julho de 1944) foi escritor, ilustrador e piloto da Segunda Guerra Mundial.
 
Jairo Ramos Toffanetto

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O que somos. (Relexões deste dia de Natal)

(Relexões deste dia de Natal)

O que somos...
um micro-cosmo que só podemos entrar sentindo.
Somos puro espírito, e de porta aberta.

A Criação é Luz.
A felicidade está no amor.
A Vida é um estado de amor,
estado em permanente criação,
e por todo o universo.

Universo... Oinverso
(o inverso) é estagnação.
Tudo que estagna apodrece
e morre.

Nosso coração é manjedoura
para o nascimento de algo maior que nós,
e na forma de uma criancinha.
O Menino Jesus.

O Menino anda por aí
batendo nas portas fechadas.
Ele nada pede, nada quer.
Só entrar para nos abrigar com sua Luz.

Somos Luz,
ou ainda...
filhos desta Luz.

Jairo Ramos Toffanetto

Fotos por M. Regina B. Toffanetto

Clique nas fotos para o modo ampliado.
Ouça T.Rex ao rolar as fotos.

Na quinta-feira, 20.12.12, a Regina tirou esta foto no amanhecer da Av. dos Bandeirantes-SP (descendo para a marginal do Rio Pinheiros).


No dia seguinte, 21.12.12, ela fotografou de Jundiaí a São Paulo pela Rodovia dos Bandeirantes. Separei algumas fotos para as compartilhar com os amigos deste blogue:

O Pico do Jaraguá no contorno central e,
abaixo à direita, o retrovisor:
 
 
 
Na marginal do Rio Pinheiros:
 
 
 
 


RAY CHARLES "I Can't Stop Loving You" e "Hit the Road Jack"

Para sonhar


"I Can't Stop Loving You" is a popular song written and composed by country singer, songwriter and musician Don Gibson, who first recorded it on December 30, 1957, for RCA Victor Records. It was released in 1958 as the B-side of Oh, Lonesome Me, becoming a double-sided country hit single.


Hit the Road Jack is a song written by rhythm and bluesman Percy Mayfield and first recorded in 1960 as an a cappella demo sent to Art Rupe.[1] It became famous after it was recorded by singer-songwriter-pianist Ray Charles with the Raelettes vocalist Margie Hendricks.

domingo, 23 de dezembro de 2012

E o mundo não se acabou - Ademilde Fonseca

 
Composição de Assis Valente (1938)
 
 


Ademilde Fonseca (1921-2012). Suas interpretações a consagraram como a maior intérprete do choro cantado, sendo considerada a "Rainha do choro". Faleceu no Rio de Janeiro aos 91 anos.

Rita Lee Jones - Gita (de Raul Seixas) e Jardins da Babilônia

Rita Lee "quietinha" na cadeira.


 
 
 

George Harrison - Here Comes The Sun e My Sweet Lord

 
As melodias dos Beatles ouvidas nesta época do ano ficam muito próximas do espírito do Natal. Será por causa da harmonia como sinônimo de beleza?

 
George Harrinson em reverência a algo maior:
 
 
 
George Harrinson: While myguitar gently weepx
 
 
 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Ah meu caro Zygmut Bauman


Ah, meu caro Bauman

 
Misturando o que penso com Bruno Bettelheim e Darcy Ribeiro, o homem, enquanto produto do meio, vive pulando de um “estar contente” para outro sem nunca encontrar significado para a vida.

Aprendi que a arte da vida só é possível para os que buscam o amor universal integrando-o cada vez mais e mais em sua passagem pela vida, portanto, esta arte está no processo que leva ao objetivo alcançado, isto é, quando se tem algum, e este, para todo o universo. A felicidade (o amor) não é algo para dias futuros, mas pra hoje, já-agora - a parte está o todo e vice-versa. Prazer (a paixão) é outra coisa, é coisa do momento.

Não há nada de errado com a visão de Bauman, curti a leitura, mas falta um elemento a mais, pois vi que toda atenção é posta no homem como produto no meio, no protótipo condenado ao experimento, sem alento ou encanto, a obscuridade nas luzes da ribalta foi tudo aonde o homem do presente pôde chegar, mas que ninguém se engane, o homem verdadeiramente humano continua andando por aí.

De minha parte, gosto dos loucos, dos utópicos ou idealistas, e acredito, isto sim, no homem novo, inteiramente novo e, por isto mesmo, em nenhuma revolução.

Tenho composto o meu olhar com tantas auroras...


Jairo Ramos Toffanetto

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Stevie Ray Vaughan "Gone Home" e "Say What!"



 
Stevie Ray Vaughan (Dalas,1954-1990, East Troy). Iniciou sua carreira musical em Austin. Importante personagem do Texas blues, um estilo musical caracterizado pelo swing e pela fusão de blues e rock. Englobou diversos estilos, incluindo o jazz. Foi indicado a doze Grammys, vencendo seis, e em 2000 foi postumamente introduzido ao Hall da Fama do Blues. Morreu em um acidente de helicóptero. 
 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Billie Holiday - Blue Moon


 
  Canção escrita por Richard Rodgers e Lorenz Hart
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Caetano Veloso - Podres Poderes (com letra)

 
Podres Poderes
Caetano Veloso

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...
Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...
Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!

S. C. Corinthians Paulista, Bi-Campeão Mundial Inter-clubes (Homenagem a um bom corinthiano - reedição)


Apesar de gostar de futebol, não imaginava escrever sobre este tema, e muito menos em referência ao arqui-rival do meu Palmeiras Futebol Clube, o Sport Club Corinthians Paulista, até que à meia noite de primeiro de setembro, uma queima de fogos me acordou. O Corinthians era no novo campeão brasileiro (2010) e, imediatamente me veio a imagem do Sr. Orlando Toffanetto, meu bom pai, o maior corintiano que conheci.

Para se ter uma idéia do quanto ele era apaixonado pelo seu time, certa vez, em uma sala de espera onde aguardava passar por uma pequena cirurgia, dores atrozes lhe obrigava sentar-se de lado, quase deitado, com uma perna no chão e a outra tomando conta do resto do sofá. Observando-o em silêncio, ora ele me parecia em profunda circunspecção, ora um sorriso feliz e, de vez em quando, com o rosto franzido, soltava um gemido quase mudo. Eu, que sofria pela dor dele, perguntava-me em que ele poderia estar pensando, mesmo porque, seu olhar parecia seguir cenas do passado. “Oh meu pai... meu paizinho...”.

Num repente estonteante para mim, eis o que ele me pergunta :

- Jairôo... será se o Corintians ganha do Palmeiras hoje?

“Ah, ele deveria estar relembrando cenas de jogo do seu saudoso Corinthians. Quem sabe se não era o Cláudio cruzando uma bola para o cabeceio fatal do Cabeção? ou seria um passe magistral de Roberto Belangero? dribles de Luizinho, o "pequeno polegar"? a raça de Idário? ou alguma defesa fantástica de Gilmar? Mas estávamos no ano de 1993 ou 1994. Época em que o Palmeiras formou um time insuperável. Pela sua pergunta, entrevi que, na imaginação dele, o seu time estava bombardeando o meu. Respondi-lhe com suas próprias palavras, textualmente:

- Pai, "clássico é clássico, não tem favorito" e "um time grande não perde três clássicos seguidos contra um outro grande time".

A resposta o anestesiou. Vi sua expressão de dor se transformar em sorriso. Pareceu-me que ele sofria mais pelo seu time do que a dor física que deveras o importunava. Entrar num “centro cirúrgico”, naquela altura do campeonato, parecia-lhe de menos. Ai meu pai..., meu paizinho... Naquele domingo fui um “corintiano orlandense”. Torci, e muito, pelo sr. Orlando, meu velho e bom corintiano, e que viria falecer uns quinze anos depois.

Eu tinha tudo para torcer pelo mesmo time dele. Quando lhe perguntavam "qual a idade do seu menino", ouvia-o responder "Ele nasceu quando o Corintians foi campeão do IV Centenário da Cidade de São Paulo", e colocando o outro no calendário corintiano, concluía com um sorriso maroto "Agora é só você fazer as contas".

Tenho outras histórias sobre este pai corintiano que jamais questionou a minha alvi-verde preferência, ou fez alguma zombaria do meu time, nem do time dos outros. Ele gostava mesmo de futebol, e até a escalação do ataque dos times do Rio de Janeiro ele sabia de cor.

Certa vez, ele me levou ao Estádio Municipal do Pacaembu para eu ver o Garrincha, um legítimo representante do futebol-arte brasileiro, em jogo contra a sempre perigosa Portuguesa de Desportos. Lembro-me bem daquele jogo, um duelo do futebol espirituoso, admiravelmente galante, mas isto é assunto para uma nova postagem.


Por hora, no centenário do "alvi-negro da fazendinha" , deixo esta minha sincera homenagem a todos os bons torcedores deste time histórico e, em especial, in memoriam ao melhor corintiano que já conheci: o meu pai, cujo coração era tão grande quanto o futebol brasileiro.

Jairo Ramos Toffanetto
 
Reedição da postagem de 05.09.2010:
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

São Paulo ( Haicai)



                           São Paulo
 
Chuva pesada
na Terra da Garoa
é garoa da grossa
 
 
                                                     Jairo R. Toffanetto

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O homem do fim do mundo (crônica)



                                                                 Google Imagens
 
Vila Mariana-SP. Trinta e dois graus à sombra. Chego à Rua Domingos de Moraes e entro num lugar onde havia cerca de cento e trinta pessoas sentadas aguardando seu número de senha piscar num painel luminoso. Fui passando por elas à procura de um lugar para me sentar. Gente se abanando, outros dormindo com a cabeça pendida pro lado do ombro, muitos de braços cruzados sobre o peito, imóveis como pedra enquanto outros se reviravam nas cadeiras. O desconforto era geral.


Achei um único assento. Era tudo que eu precisava para finalizar a leitura do livro “A arte da Vida” do pensador Zygmunt Bauman. Para mim, um livro mais interessante que importante. Para dar divertimento, lia-o como uma ficção futurista em tempo presente. Um dia destes eu comento Bauman.
Ao sentar dei-me conta de muita gente em redor falando sobre a profecia Maia do fim do mundo com data marcada: vinte um de dezembro. Diziam:
- Desta vez não escapa. É a última sexta-feira do ano, disse uma velha senhora.
- Então pode esquecer o Natal, afirmou uma outra.
- Que nada, vamos passar o Natal no céu. Respondeu uma que estava mais ao fundo.
- Ou no inferno, assados e dentro de uma bandeja na mesa do“coisa ruim”. Disse um homem em tom ríspido.
Um velhinho de boina corrigiu o que ouvira:
- O inferno é aonde estamos agora, quente pra burro, sem ar condicionado ou ventilador e com um montão de gente em fila. Se o fim do mundo fosse agora, pelo menos morreríamos sentados.
A mulher que estava ao meu lado interveio:
- O inferno deste lugar quente e abafado acaba em mais ou menos duas horas, isto é, se tivermos muita sorte.
Uma mulher de trinta anos exclamou inconformada com o que estava ouvindo:
- Ai... o fim do mundo... gente, eu tenho uma filhinha de três anos. Não acredito no fim de coisa alguma, e nem quero saber desta conversa fiada, tenho mais no que pensar.
Um homem sentado à sua frente voltou-se para trás para dar uma espiadela em quem acabara de falar, e a mulher desejosa em abafar o assunto, perguntou a ele:
- E o senhor... acredita no fim do mundo pra semana que vem?
No fundo ela estava com medo danado e queria ter alguém do lado dela para o escorar, mas batera em porta errada. O cara não tinha nenhuma vocação para bengala. Respondeu-lhe assim:
- Moça, não é questão de acreditar ou não. Será o fim do mundo, afirmou ele. Garanto-te que as crianças se salvarão, portanto, cuide-se para que sua filhinha não fique órfã.
Uma estudante com livros e uma brochura no colo saiu em defesa da mulher  e ao homem do fim do mundose dirigiu com desafiadora ironia:
- Jura? Então você deve saber como será, não é mesmo!

Ele respondeu com impassividade:
 
- Você já viu um tipo de mata-moscas antigo que atraía o inseto com uma luz roxa? Pois então, quando elas se aproximavam daquela luz levavam uma espécie de “bizzzt” e caiam mortas ao chão. Pois o fim do mundo será algo parecido com isto. Uma luz roxa entrará no planeta e os que não estiverem preparados para ela cairão como moscas ao chão.
- Ai minha Nossa Senhora, exclamou a "mulher da filhinha".
Ninguém mais abriu a boca. Voltei-me pro meu livro, mas nem deu tempo de terminar o parágrafo. porque um homem lá do fundo instava alguém em voz alta:
- O “fio”, cutuca ele. Cutuca ele, "fio".
O homem do fim do mundo foi cutucado. Ao olhar para trás viu um brutamonte de pé que o mirava como se ele fosse um inseto:
- Qual é a religião do senhor?
- Religião do Senhor... Jesus não seguia religião nenhuma, moço.
- Cara, tô perguntando qual é a tua religião. Responda-me o que te perguntei, disse o "fortão" metendo bronca.
O cara do “fim do mundo” não se dobrou, respondeu-lhe em desafio:
- Se eu tivesse alguma religião aposto que não seria a mesma que a tua.
- Mas quem você pensa que é?
- Não penso... e fechou os olhos apontando-os para o alto da testa. Ao abrir as pálpebras o brutamonte viu, por primeiro, os branco dos olhos do cara do fim do mundo e, no instante seguinte, a bola dos olhos batendo contra as dele:
- “Virgi Maria” exclamou arrepiada a mulher da filhinha.

Lacônico, o homem do fim do mundo completou a frase:
- Sou aquele que monta o cavalo de fogo.
O brutamonte fez dois sinais da cruz e se sentou como um cachorrinho subserviente, e ninguém mais ousou dizer uma única palavra.
Moral da história:
1. Não olhe para o lado se o assunto da conversa em volta não te diz respeito.
2. Numa roda de conversa mole, daquelas que se usa para matar o tempo, não puxe ninguém para entrar. Deixe que os afins entrem de livre e espontânea vontade.
 
Jairo Ramos Toffanetto

 

 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Regin'arte

 


 
















 
 
 
 
 
 
 
 
fOtOs em 05.12.2012
 V.ClementinoSP
(Clique nas fotos para ampliar)
 

Estação Ferroviária de Jundiaí (SP) - Fotodigitagem












 
 
Fotos JRToffanetto
no amanhecer de 05.12.2012