sábado, 28 de fevereiro de 2015

Nei Lisboa - "A Tribo Toda Em Dia De Festa" e "Capricho"






Coisas do amor (2) "No Teu Olhar"


FotoJRToffanetto
















Nos teus olhos
as vagas do oceano com que me arrebatas

JRToffanetto


Coisas do amor (1)


FotoJRToffanetto













Coisas do amor (1)

O poeta não larga a dor no braço
se nele dorme a mulher amada.

JRToffanetto


Giuseppe Ungaretti (Poemas)













O Porto Sepulto
Eis que chega o poeta
e volta depois para a luz com os seus cantos
e os despende
Desta poesia
me resta
aquele nada
de inexaurível segredo


Eterno
Entre uma flor colhida e o dom de outra
o nada inexprimível


Atrito
Com minha fome de lobo
amaino
meu corpo de cordeiro
Sou como
a barca ínfima
e o libidinoso oceano


(Tradução de Haroldo de Campos)

Guillaume Dufay: J'ai mis mon cuer - Belle_ que vous ay je mesfait

Música Medieval  Holandesa




MARLOS NOBRE, Ludus Instrumentalis e 1/3 Trio Brasileiro



First movement (ANIMATO) of the Trio opus 4 by Marlos Nobre , with Gilberto Tinetti (piano), Erich Lehninger (violin) and Watson Clis (cello).They recorded the work in 1960, to the label EMI Angel. This Trio received in 1960 the first prize at the National Competition "Music and Musicians of Brazil".

Marlos Nobre recorded for EMI ANGEL his LUDUS INSTRUMENTALIS for chamber orchestra, conducting the National Symphony Orchestra of Brazil, The work was written in 1969 when the composer was in residence at the Tanglewood Festival, USA.
https://www.youtube.com/watch?v=Z__-F_I0Kaw

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

CXIV- Expo Imagens -"'Desde os Muros de Pompéia"


FotopoemaJRToffanetto

O artista não assinou esta intervenção urbana em Vila Mariana-SP. Creio que seja o próprio, desenhado com os pés fincados no chão e de costas para a cidade enquanto religião inconsciente de todos e seus mandamentos tidos ao pé da letra.

Do eu centrado em seu fazer artístico, eis a representação do novo em comum a poucos, desafiando-nos pelo quadro em branco, o vazio dentro do indivíduo, dizendo-nos como único espaço possível porque não ocupado pelo preto no branco do feroz cotidiano citadino.

Pois este desenho diz mais do que um bando de basbaques nacionais e internacionais vomitaram na recente Bienal de São Paulo. Pra mim, esta é a essência do "grafite": o preto e branco, o muro, o indivíduo fora do sistema, a pichação niilista diante da urbe massificante e, sobretudo, o desafio do olhar para por o pé no chão de todos nós

Artistas sao aqueles que vieram trazer suas cores próprias, suas tintas como um presente, o novo no sistema em branco porque carente de sentido. O vazio alcança o significado de ser preenchido com a criatividade daqueles com existência própria e que estão por aí, brotando do chão em poética busca do novo, o eternamente belo, o belo em todos nós e que a cidade, a mente comum, cuida (debalde) solapar.

JRToffanetto

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

CXIII - Expo Imagens - "A Mamangava de hoje"

Tudo começou com a flor ao rés do chão,


Depois vieram as borboletas,


a abelha europa


seguida da magangava,


a temida abelha mamangava.


Pois esta abelha me levou de volta para a infância, tempos em que andávamos descalços pela relva.

A mamangava era tudo o que mais temíamos, especialmente aqueles que, como eu, houvera, sem querer, pisado sob uma abelha europa. Um amiguinho da rua fora picada na orelha e outro no beiço. Comparando a dor com o da possível picada da magangava, imaginávamos-la extrema, algo mortal.

Bons tempos aqueles em que o portão das casas ficava aberto para as crianças entrarem e saírem à vontade. Nosso temor era pelas picadas das abelhas e, especialmente, pelas mamangavas, a propósito, nunca soube de alguém picado por ela. 

No Brasil de hoje a picada vem pela ponta da faca ou pelo picote de uma bala deparecendo com inocentes. Meu Deus, que Brasil é este? 

Um país sem governo. 
Um Mundo Bem Pior.

JRToffanetto

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Uriah Heep - "Bird of Prey"




Vendo este desenho minimalista


lembrei-me da contracapa do disco Salisbury do Uriah Heep (segundo disco - 1970) e não a encontrei no Google Imagens. Nela está um canhão cuja passagem é travada por uma flor sob suas esteiras rolantes. O desenho acima enfoca a execução, e o do Salisbury coloca em relevo a ação do amor. Naqueles tempos havia um slogan muito repetido pela minha geração "Flower Power". Acredito nisto, enquanto uma ação para a vida. O da forca, com fortes cores do chocante vermelho sangue, traz a morte em primenro plano, tirando a força do STOP, mas se ainda o aprendizado é pela dor.... (JRToffanetto)

Haicai #476. Moradas do Sentir


Haicai #476.

Olhos a fruir
percorrem planos de luz,
moradas do sentir

JRToffanetto


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Castro Alves "O Navio Negreiro"

Ilustrações Google Imagens
Fonte: https://docs.google.com/document/d/1JhybP7NGRYDtiQgl8BcBPRXRmh4pyALUldJ7gy6pVps/edit?hl=pt_BR&pli=1


COMENTÁRIO

O Navio Negreiro é um dos poemas mais significativos do romantismo brasileiro. Enquanto outros poetas como Gonçalves Dias, tomam o índio como herói, Castro Alves tomou o negro, nada estético, tido como de casta inferior na sociedade, sem nenhum valor mítico.

Castro Alves compôs Navio
Negreiro aos 22 anos de idade
O índio foi um herói bem mais fácil de ser forjado, pois existia apenas como mito, não participava da sociedade e tinha valor heróico, por causa da sua tradição guerreira. Assim, o negro, em Castro Alves, é quase sempre um mulato com feições e sensibilidade de um branco. O amor é tratado como um encantamento da alma e do corpo e não mais como uma esquivança ou desespero ansioso dos primeiros romances.

A temática social abordada por Castro Alves, explicitada na denúncia dos horrores da escravidão e na luta pela sua abolição, difere por completo dos tópicos recorrentes na fase do Ultra-Romantismo ou "Mal do Século", representados por poemas que abordam, num universo de pessimismo e angústia, os seguintes aspectos: individualismo, solidão, melancolia, frustração e morte.

Um dos mais conhecidos poemas da literatura brasileira, O Navio Negreiro – Tragédia no Mar foi concluído pelo poeta em São Paulo, em 1868. Quase vinte anos depois, portanto, da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos, de 4 de setembro de 1850. A proibição, no entanto, não vingou de todo, o que levou Castro Alves a se empenhar na denúncia da miséria a que eram submetidos os africanos na cruel travessia oceânica. É preciso lembrar que, em média, menos da metade dos escravos embarcados nos navios negreiros completavam a viagem com vida.

Composto em seis partes, o poema alterna métricas variadas para obter o efeito rítmico mais adequado a cada situação retratada. Assim, inicia-se com versos decassílabos que representam, de forma claramente condoreira, a imensidão do mar e seu reflexo na vastidão dos céus.

Navio Negreiro
Castro Alves




















I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.  

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...  

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...  

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...  

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço.  

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!  

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!  

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!  

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................  

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!  

Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.














II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.  

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!  

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!  

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...















III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!













IV
   
Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...  

Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!  

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...  

Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!  

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."  

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...  














V
   
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!  

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...  

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .  

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.  

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...  

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.  

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...  

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...  

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...












VI   

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...  

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...  

















Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares! 
. . .

Eu, particularmente, creio que Castro Alves compunha seus poemas para serem declamados com a força da sua criação. A sonoridade cantante deles é sem igual, uma autêntica embriaguês poética a transcender seus versos e a nos levar a um estado, a um sentimento poético único e, artisticamente, de difícil alcance. Assisti grandes autores de teatro e televisão a "recitarem" seus poemas sem que me levassem a este inebriante encanto de que sinto e, ainda, sem este canto a vibrar o caracol do ouvido interno e, há muito tempo, uns trocentos anos que abandonei o banco escolar. Tenho plena convicção que seus poemas deveriam ser declamados pelos poetas para não vê-los transformados em coisa de pretensos intelectuais. (JRToffanetto)